Comparar crianças prejudica o desenvolvimento? Entenda o porquê

criança isolada em ambiente escolar enquanto outras interagem blog espaço arima

A prática de comparar crianças em desenvolvimento é mais comum do que parece. Frases como “o colega já fala melhor”, “o primo já faz isso sozinho” ou “na escola todos acompanham menos ele” costumam surgir, muitas vezes com a intenção de entender o que está acontecendo.

No entanto, embora pareça uma forma de avaliar progresso, a comparação pode trazer impactos importantes para o desenvolvimento emocional e social da criança, especialmente no autismo, onde os caminhos de desenvolvimento não seguem padrões previsíveis.

Continue lendo para entender melhor!

Por que os adultos comparam?

Comparar é uma tentativa de referência. Pais e educadores buscam parâmetros para entender se a criança está avançando, se precisa de ajuda ou se algo foge do esperado.

Essa busca é legítima. O desenvolvimento infantil costuma ser apresentado em marcos e idades, o que pode reforçar a ideia de que existe um ritmo padrão a ser seguido.

O problema surge quando essa referência se transforma em medida rígida, desconsiderando que cada criança tem um percurso próprio, influenciado por fatores individuais, ambientais e neurológicos.

Impactos emocionais da comparação

Quando a criança é constantemente comparada, direta ou indiretamente, isso pode afetar sua relação com o ambiente e com as próprias tentativas.

Ela pode perceber que está sempre “atrás”, o que reduz a motivação, aumenta a frustração e pode levar à evitação de situações desafiadoras. Em alguns casos, a comparação também interfere na autoestima e na forma como a criança se posiciona socialmente.

Um outro ponto de atenção é a comparação vista como “positiva”. Nem toda comparação acontece de forma explícita ou com intenção negativa. Alguns adultos utilizam exemplos de comportamentos ou conquistas de outras crianças como tentativa de incentivo. 

Apesar disso, quando este fenômeno acontece repetidamente, a criança pode interpretar que seu valor está condicionado ao desempenho ou à capacidade de acompanhar os outros.

Ainda sobre este ponto, podemos citar a comparação entre irmãos, pois mesmo em famílias acolhedoras, não é incomum que os adultos utilizem um filho como parâmetro para avaliar ou até incentivar o outro. 

Porém, além das diferenças individuais, crianças autistas podem apresentar ritmos de desenvolvimento bastante distintos, o que torna esse tipo de expectativa ainda mais delicado. Principalmente porque o desenvolvimento em crianças com TEA nem sempre acontece de forma linear.

Comparação na escola

O ambiente escolar é um dos contextos em que a comparação aparece com mais frequência. Atividades coletivas, avaliações padronizadas e dinâmicas em grupo tornam as diferenças mais visíveis e é neste momento que não apenas os adultos podem comparar, como as crianças do entorno tornam-se mediadores de comparação.

E quando não há adaptação adequada, a criança autista pode ser percebida apenas pelo que não acompanha, e não pelo que consegue fazer. Evidentemente, isso pode impactar sua participação e sua experiência no ambiente escolar, potencializando as comparações.

Por outro lado, quando a escola reconhece as diferenças e ajusta expectativas, o foco deixa de ser a comparação e passa a ser o desenvolvimento individual. Eis aqui o papel fundamental das instituições de ensino.

Como respeitar trajetórias individuais?

Respeitar trajetórias não significa deixar de acompanhar o desenvolvimento, mas mudar a forma de observar.

Em vez de comparar com outras crianças, é mais produtivo observar o próprio percurso da criança ao longo do tempo. Pequenos avanços, maior participação, novas tentativas e maior organização já indicam desenvolvimento.

Em vez de utilizar outras crianças como parâmetro, a literatura sobre desenvolvimento infantil sugere estratégias de incentivo centradas no percurso individual da criança. 

Estratégias de incentivo ao desenvolvimento

O psicólogo Lev Vygotsky, em sua obra “Formação social da mente”, propôs o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que descreve a diferença entre aquilo que a criança consegue fazer sozinha e aquilo que ela consegue realizar com apoio de um adulto ou mediador mais experiente. 

Nesse contexto, o desenvolvimento acontece de forma mais consistente quando os desafios são ajustados ao nível atual da criança, sem exigências excessivas nem ausência de suporte. 

Por isso, práticas como reconhecer pequenas conquistas, valorizar tentativas, dividir tarefas em etapas menores e tornar o progresso visível ao longo do tempo tendem a favorecer maior engajamento e segurança emocional. 

Na ABA contemporânea, estratégias como reforço positivo e modelagem comportamental são frequentemente utilizadas para ajudar a criança a desenvolver habilidades de forma gradual e mais funcional. 

Reforço positivo

O reforço positivo acontece quando um comportamento importante para o desenvolvimento é seguido de uma consequência agradável ou significativa para a criança, aumentando a chance de que ele aconteça novamente. Isso pode incluir elogios específicos, brincadeiras, acesso a interesses da criança ou reconhecimento de pequenas conquistas. 

Modelagem

Já a modelagem comportamental consiste em ensinar habilidades em etapas menores, valorizando aproximações progressivas do comportamento esperado. 

Por exemplo, uma criança que ainda não consegue participar de uma brincadeira em grupo pode, inicialmente, ser incentivada apenas a permanecer próxima da atividade, depois observar os colegas, até conseguir interagir de forma mais ativa com o tempo. 

Essas estratégias ajudam a construir experiências de competência e participação, reduzindo frustrações excessivas e favorecendo o aprendizado dentro do ritmo da própria criança. 

A construção de expectativas ajustadas, alinhadas ao perfil da criança, ajuda a criar um ambiente mais seguro para aprender.

Perguntas frequentes

Comparar sempre é prejudicial?

Comparações como referência podem ajudar na observação, mas quando se tornam padrão rígido, tendem a prejudicar.

Como lidar com expectativas?

Ajustando expectativas ao ritmo e às características da criança, com apoio profissional quando necessário.

O que fazer na prática?

Observar o progresso individual, valorizar pequenas conquistas e evitar comparações diretas com outras crianças. Ademais, buscar acompanhamento profissional para orientações e inclusão adequada da criança em rotinas de desenvolvimento é fundamental.

Em resumo, no contexto do comparar crianças em desenvolvimento, é importante lembrar que cada criança constrói seu caminho de forma singular. E isso é fundamental não apenas para o próprio caminho da criança, mas também para a paz das famílias.

O desenvolvimento infantil não acontece em linha única, e reconhecer isso permite um acompanhamento mais sensível e eficaz.

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